Quando tive certeza de que era ele naquele ônibus lotado comecei a pensar em como a vida me prega peças. Por tantas vezes desejei encontrar ele por aí, vê-lo de longe apenas para matar a saudade dos meus olhos que viram nele algo que as pessoas de hoje não costumam carregar. E então ele sorriu, não pra mim, nem para ninguém, apenas sorriu, do nada. Um sorriso meio torto puxando só um canto da boca. Eu ainda não o tinha visto sorrir - sorriso de quem com vergonha de que percebam que está a rir sozinho, daqueles que duram um segundo e nove décimos. Foi quando ele percebeu que alguém olhava - que eu olhava - e por estar distraído demais, talvez, que eu não desviei o olhar quando os olhos deles encontraram os meus - não tenho certeza, mas acho que são azuis acinzentados, mas podem ser castanhos também, não sou bom com detalhes, não que eu tenha enxergado de tão longe, mas por já ter o visto de perto consegui imagina-los mesmo longe - e por um momento grande, ou vários momentos miúdos - pois tudo depende do que cada um usa para separar um momento de outro - nossos olhares se sustentaram, até quando era possível enxergamos um ao outro. Eu não sei mais quando o verei, já que só o vejo quando não o procuro, mas de uma coisa eu pude ter certeza assim que nossos olhares se quebraram: eu sonharei com aquele sorriso torto essa noite.
— Por acaso um atraso conveniente. (via amei-xas)
Só te ama de verdade aquele que nunca te esquece.
— Apocalipse 16 (via durador)
O defeito das pessoas é achar defeito em tudo.



